29 de jun. de 2015

"Admirável Mundo... Velho" por Mendes Viana


Mary Ellen Mark


Não sou um leitor ávido.
Tampouco tenho memória de elefante.
Mas algumas coisas em minhas experiências se destacam contra a minha vontade de esquecê-las.

Eis um livro detestável. Admirável Mundo Novo. Não o apreciei quando li, e sequer reli. Mas, como um infortúnio do destino, deparei-me com ele e suas histórias advindas no decorrer dos tempos. Uma coisa se destaca: uma personagem diferente dos outros. Não escondo, o final da história é um “quê” para mim, uma vez que o encerramento não passa pela minha cabeça (nem lembro do enredo).
Esse texto é um cheio de nãos.
Lembro-me, vagamente, de um personagem oposto ao coletivo, um atentado ao pudor – ou contra-pudor, quisera eu entender a história. E Huxley descreve, em seu livro, uma sociedade movida praticamente por instintos animais que, ironicamente, ignora o mundo ao redor de seu pequeno, porém amplo mundo.
Comecemos a esclarecer.
Um social tão voltado a seus lugares, que sequer considerou sair deles. E um indivíduo com defeito de fábrica ousa pensar diferente.
Basta de paráfrases, contento-me em pensar nos tempos atuais. Admiro-me com um oposto tão Caravaggio, tão chiaro-scuro dos tempos atuais – e tempos que nunca mudam, afinal.
Numa grande avenida, indivíduos caminham em prol da liberdade e igualdade – quase uma revolução francesa, porém voltada à revolução de gêneros. E, nesta mesma larga avenida, outdoors objetificando – e aqui, procuro cautela para não cair no senso comum – seres humanos em prol, por sua vez, de lucros. Profits. E pergunto-me, ingenuamente, quando foi que o ser humano passou a se vender e a seus vizinhos.
Descobri recentemente – e recentemente demais, diga-se de passagem – que um grande incitador do movimento “feminista” – temo em usar tais palavras, pois podem ser distorcidas. Mas prossigo; um grande incitador do movimento “feminista” na América foi a revista Ms. Uma revista criada por mulheres, naturalmente; porém mulheres que não se encaixavam em lugar algum. E a importância da revista é tão simples, porém tão grandiosa, que surpreendo-me de quando em vez comigo mesma ao perceber tal significância.
Traduzindo; a revista nada mais fez que denunciou. Informou. A revista mostrou às mulheres que a liam, e até mesmo às que não a liam, que a realidade era outra, diferente da que era idealizada e proposta, desde os anúncios até a televisão.
O mundo é tão hipócrita que fecha os olhos para si mesmo. O mundo é preguiçoso, teme ter que fazer algo. Pode se remoer por dento, pode ter pena, pode ter compaixão; mas não se move momento algum para mudar (se).
A moda faz-me rir.
Mac Adams

Tantos outros deixaram sua marca na história por fazerem algo diferente, e logo hoje, o século da liberdade e inovação, vejo que suas criações não passam de papéis ao vento.
A desilusão é grande nesse mundo para os que querem saber mais. Feche os olhos, eu aviso, feche antes que não o possa mais fazer.
Porque para cada grande homem ou mulher que é idolatrado, há o seu lado mais obscuro que poucos têm a coragem de mostrar.
Qual foi a minha surpresa, portanto, quando descobri estilistas envolvidos com o nazi-fascismo, extermínio de animais, escravidão e etnocentrismos? Encostei-me numa parede pois senti que não tinha chão. Os apoios estavam sumindo, e tudo em que eu acreditava evanesceu.
Para os que ainda estão encostados em paredes feitas de carne humana forradas com ouro e cobertas de diamantes e escritos, sugiro apenas que estude, pesquise, vá além. Porque, nos anos 70, as jornalistas da revista Ms. procuravam denunciar a realidade cruel e exploradora das mulheres em suas próprias casas; os poetas do meio do século XIX procuravam denunciar a escravidão; Galileu procurou denunciar a cegueira humana à humanidade (e acabou preso por tentar fazê-lo). Todos foram julgados, condenados. Porque o resto estava cego.
Você, que é jovem e o contrário de ingênuo, não seja cego. Você sabe que tem algo mais. Você sabe que tem algo escondido. Esse mundo é tão perfeito! É mesmo?
Garanto que se procurar saber mais, e acabar se desiludindo, quem vai sair perdendo não será você. Esse mundo fútil e insensível é que vai – vai perder um cordeiro e ganhar um lobo. Lobo esse que reconhece que a moda já foi, e não mais é, um painel de artes; belas-artes; a Arte, em si. Pois se há arte mais antiga que possa ser datada, citemos a moda. Caso não saiba mais definir “Moda”, não tema. Está correto.
Essas paredes podem ser derrubadas; e ao contrário da lógica, quanto mais paredes forem derrubadas, mais lares serão criados.





Por Mendes Viana.